Íracles Brocos Pires: a mulher que revolucionou o Sertão da Paraíba

Ela desceu dos palcos para construir narrativas junto à plateia, costurar tramas da cultura de sua cidade e trilhar caminhos nada convencionais para uma mulher de seu tempo. Assim foi a trajetória de Íracles Pires, mais conhecida como Dona Ica, que contribuiu para o teatro e o rádio cajazeirense e, engajando-se nas causas de sua terra natal, ajudou a despertar e inspirar talentos e ativismos culturais nas artes e na comunicação do Sertão paraibano.

Íracles Brocos Pires nasceu em 15 de janeiro de 1933, em Cajazeiras, filha do casal Adriano Brocos e Cecília Matos Rolim Brocos. Ainda na adolescência, com o falecimento do pai, foi morar no Rio de Janeiro, onde concluiu o Curso Normal e chegou a frequentar a Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF). No retorno à cidade natal, para visitar um primo em tratamento no Hospital Regional, conheceu o médico Waldemar Pires Ferreira, com quem viria a se casar e ter dois filhos, Jeanne Brocos e Saulo Péricles Brocos (Pepe), fixando-se novamente em Cajazeiras.

“Mãe dedicada, amorosa, enérgica e feliz! Embora muito ocupada, sua agenda era aberta a qualquer momento para nos atender. Gostava muito de ler e, com esse exemplo, incorporamos o prazer da leitura e a importância da cultura em nossas vidas, influenciando também os amigos”, relatou Jeanne Brocos. As lembranças que a filha tem da infância são de casa cheia, tanto em razão das festas que promovia, como as juninas — nessa época, a quantidade de afilhados de fogueira de Dona Ica praticamente triplicava —, quanto nas peças que montava, com os filhos e seus amigos como plateia ou, a depender da ocasião, como assistentes de produção ou mesmo substituindo os atores que faltavam aos ensaios com a leitura dos textos.

Péricles, que recebeu o nome em homenagem ao tio, irmão mais velho de Íracles, conta que muito daquilo que a mãe procurou fomentar no meio cultural de Cajazeiras deve-se à influência de sua convivência com artistas e figuras famosas no Rio de Janeiro, para onde, inclusive, retornou depois de casada, a fim de cursar algumas disciplinas no Curso de Teatro da Escola de Belas Artes, onde foi aluna do teatrólogo e diretor mineiro Amir Haddad.

Dama do teatro

“Ela sempre montava, pelo menos, uma peça por ano, mas também chegou a escrever duas peças. A primeira intitulada Fui eu, mas não espalhe, em 1968, na época da censura, cujo original ainda tenho, todo carimbado. A outra foi uma peça radiofônica sobre o trágico morticínio eleitoral ocorrido em Cajazeiras, em 1872”, declara o filho. Dentre as montagens, destacam-se os espetáculos O Noviço, de Martins Pena, Afilhada de Nossa Senhora da Conceição, de Luiz Marinho, Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, além de O Piquenique do Tigre, Dona Xepa, A Dama do Camarote e o clássico Édipo Rei.

“Eu fiquei impressionado com a montagem que Íracles fez, com o TAC [Teatro Amador de Cajazeiras], do Auto da Compadecida, nos anos 1960. A direção de Ica foi digna de rasgados elogios de Ariano Suassuna, que foi a Cajazeiras assistir ao espetáculo e participar de uma conferência na semana universitária, promovida pela Associação Universitária de Cajazeiras (AUC). Tenho certeza de que aquilo foi o que me levou, ou melhor, me apressou a fazer teatro”, confessou o teatrólogo Ubiratan di Assis, em artigo para o Correio das Artes. Ele recorda que conheceu Íracles na adolescência, quando ela ainda organizava o São João das Crianças, no Cajazeiras Tênis Clube.

Apesar da dedicação à produção, montagem e direção de encenações que encantavam as plateias, os desafios eram muitos. Em um artigo da dama do teatro sertanejo, datado de 1977 e reproduzido pelo Correio das Artes na edição comemorativa por ocasião de seus 80 anos, Íracles afirma: “Cajazeiras teima em fazer teatro. Deus sabe como, mas faz teatro e teatro sério. É claro que não deixa de ser mambembe, improvisado, amador antes de tudo, mas o que faz, não tem medo de mostrar”.

Na sequência, Dona Ica enumerava os sacrifícios de quem, como ela, propunha-se a fazer teatro no Sertão: desde a dificuldade para preparar os atores e financiar as montagens até o fato de não dispor de peças, muito menos de locais para ensaiar e encenar. Clubes, bibliotecas e cinemas nem sempre estavam disponíveis; outras vezes não tinham instalações adequadas ou ainda cobravam valores altos pelo aluguel do espaço. A diretora termina seu artigo conclamando a classe artística e a política a lutar por um teatro na cidade, sonho que se tornaria realidade em janeiro de 1985, quando foi inaugurado o Teatro Íracles Brocos Pires (atualmente gerido pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba — Funesc), numa justa homenagem àquela que atuou intensamente nos movimentos culturais do Sertão paraibano.

Agitadora cultural nas ondas do rádio

“Ela era, como a gente chamava, uma agitadora cultural”, declara o professor Francelino Soares, que dirigiu a Difusora Rádio Cajazeiras (DRC) quando Íracles, já bastante conhecida na cidade e socialmente dinâmica, passou a apresentar, com Maílson Nóbrega e Biva Maia, o programa dominical Atualidade em Close-Up. “Das 10h às 11h, eles faziam uma retrospectiva da semana e, sobretudo, dos eventos sociais do sábado, pois sempre havia festas nos clubes. Eram comentários, registros dos fatos locais, já que a emissora era a única da região e o jornal só chegava no dia seguinte. Ela tinha um estilo mais livre e espontâneo de falar no rádio e era muito segura porque tinha leitura e vocabulário fluido, fácil e elegante”, acrescenta o professor, também membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (Acal).

Além de se colocar diante do microfone, Dona Ica também se valeu de seus conhecimentos no meio político para conseguir o aumento da potência da Difusora Rádio Cajazeiras, de um para dez quilômetros. O filho, Pepe, cita ainda a participação da mãe em outro programa da mesma emissora, o Consultório Sentimental, no qual os ouvintes escreviam cartas perguntando sobre namoro e envolvimentos amorosos. “Como ela era uma pessoa que já tinha feito psicanálise no Rio de Janeiro e sempre esteve à frente do seu tempo, dava as respostas sobre relacionamentos. Mas, como era muito independente, houve um desentendimento com Mozart de Sousa, diretor de programação da rádio à época, e ela foi para a Rádio Alto Piranhas”, relata Péricles. A filha, Jeanne Brocos, também se lembra de que, com suas amigas, ficava responsável por fazer a triagem das cartas enviadas para o programa radiofônico diário de aconselhamento.

Na nova emissora, o grande sucesso de audiência de Íracles foi o programa matutino Minidiscoteca Dinamite, inspirado no programa vespertino Discoteca Dinamite, comandado por Zeilton Trajano. Pela manhã, Íracles, como figura feminina de destaque, entrelaçava músicas com notícias dos principais fatos, acrescidas de comentários e críticas, sobretudo em relação às questões políticas locais. Estimular o engajamento por meio de opiniões polêmicas era a estratégia da radialista para alavancar a audiência ao longo de toda a programação.

Um caso lembrado por Saulo Péricles que mobilizou intensamente a cidade foi em torno de um projeto que previa o uso de verba federal para asfaltar as ruas de Cajazeiras. “Eles diziam, por exemplo: ‘Ica e Nonato falam contra e Júlio e Zeilton, a favor’. Aí um chegava no programa e falava contra; mais tarde, o outro se posicionava a favor e, de noite, outro se colocava contra. Então, todo mundo da cidade só falava daquilo. À noite, eles iam à churrascaria e programavam o que iam falar no outro dia, combinando as desavenças e, inclusive, as fontes que poderiam ser convidadas para os programas. Eu sei que se formou na cidade um clima de tensão tão grande que Dom Zacarias [a emissora era mantida pela Diocese de Cajazeiras] teve que intervir e pedir a Monsenhor Vicente Freitas, que também era diretor, para proibir de se falar daquele tema”, relata.

O jornalista Nonato Guedes destaca a figura carismática, excepcional e culta de Íracles Pires e seu talento nato enquanto comunicadora à frente do Minidiscoteca Dinamite, especialmente pelas críticas aos erros do poder público municipal, embora politicamente fosse ligada a grupos tradicionais da cidade. “Era uma mulher empoderada, revolucionária, muito à frente de outras figuras. Lembro-me de um episódio que definia bem seu modo de ser: presidente do Cineclube Vladimir de Carvalho, levei a Cajazeiras o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet para uma palestra sobre esse universo fascinante. Onde hospedar tão ilustre convidado? ‘Madrinha Ica’ assumiu a responsabilidade. Anfitrionou Jean-Claude em sua residência e cumulou-o de honras e homenagens que merecia”, recorda Guedes.

Quem foi, afinal, Íracles Pires?

Mesmo vinda de família patriarcal, era uma mulher autêntica, humilde e sem máscaras ou disfarces, descreveu a educadora e pesquisadora Rosilda Cartaxo, falecida em 2004. “Jamais se ajustou às formas convencionais ou pré-estabelecidas. Tinha consciência da sua própria dimensão. Ica não gostava das estradas feitas, gostava de criar realidades com esforço próprio. Íracles foi coragem, foi otimismo, foi lutadora por causas fortes”, escreveu Rosilda.

Irreverência, liderança, despojamento e doação foram qualidades que o jornalista, autor e ator de teatro Alarico Correia Neto reuniu para falar de Íracles, nome que colocou à sua filha, nascida no mesmo ano em que foi inaugurado o teatro de Cajazeiras que leva o nome de Dona Ica. “Quem conviveu com Ica, não importa qual tenha sido a data, viveu um grande tempo. Porque, como ela bem o diz em seu livro autobiográfico, que continua inédito, viveu todo o seu tempo, lamentavelmente tão exíguo para o que ela precisava e merecia viver”, comentou.

Ubiratan di Assis lembra-se do último encontro que teve com Ica, em 1979, na Estação Rodoviária de João Pessoa, e dos poucos minutos de conversa em que ela falou do livro que estava para lançar e em cuja capa pretendia colocar a radiografia mais recente de seu pulmão, em resposta àqueles que comentavam o fato de ela ser fumante. Íracles faleceu em 9 de março daquele mesmo ano, vítima de um acidente automobilístico na cidade de Jequié, na Bahia, quando retornava do Rio de Janeiro para Cajazeiras.

 

Cultura Cz com Jornal A União  

 

 

 

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